O
uso da tecnologia de informação e comunicação (TIC) na escola carrega em si
mesmo as contradições da sociedade contemporânea. Inserir-se na sociedade da
informação não quer dizer apenas ter acesso à tecnologia de informação e
comunicação (TIC), mas principalmente saber utilizar essa tecnologia para a
busca e a seleção de informações que permitam a cada pessoa resolver os
problemas do cotidiano, compreender o mundo e atuar na transformação de seu
contexto.
Assim,
o uso da TIC com vistas à criação de uma rede de conhecimentos favorece a
democratização do acesso à informação, a troca de informações e experiências, a
compreensão crítica da realidade e o desenvolvimento humano, social, cultural e
educacional. Tudo isso poderá levar à criação de uma sociedade mais justa e igualitária.
A
metáfora de “rede” considera o conhecimento como uma construção decorrente das
interações do homem com o meio. À medida que o homem interage com o contexto e
com os objetos aí existentes, ele atua sobre esses objetos, retira informações
que lhe são significativas, identifica esses objetos e os incorpora à sua rede,
transformando o meio e sendo transformado por ele.
O
uso da TIC na criação de rede de conhecimentos traz subjacente a provisoriedade
e a transitoriedade do conhecimento, cujos conceitos articulados constituem os
nós dessa rede, flexível e sempre aberta a novas conexões, as quais favorecem
compreender "problemas globais e fundamentais para neles inserir os
conhecimentos parciais e locais" (MORIN, 2000, p. 14).
Com
o uso da TIC e da Internet, pode-se navegar livremente pelos hipertextos de
forma não sequencial, sem uma trajetória predefinida, estabelecer múltiplas
conexões, tornar-se mais participativo, comunicativo e criativo, libertar-se da
distribuição homogênea de informações e assumir a comunicação multidirecional
com vistas a tecer a própria rede de conhecimentos.
As
conexões dessa rede surgem sem determinações precisas, incorporam o acaso, a
indeterminação, a diversidade, a ambiguidade e a incerteza (MORIN, 1996).
Trata-se de uma constante abertura a novas interações, ao desafio de apreender
a realidade em sua complexidade, em busca de compreender as múltiplas dimensões
das situações que são enfrentadas, estabelecer vínculos (ligações) entre essas
dimensões, conectá-las com o que já conhece (nós), representá-las, ampliá-las e
transformá-las tendo em vista melhorar a qualidade de vida.
Na
rede, aprender é descobrir significados, elaborar novas sínteses e criar elos
(nós e ligações) entre parte e todo, unidade e diversidade, razão e emoção,
individual e global, advindos da investigação sobre dúvidas temporárias, cuja
compreensão leva ao levantamento de certezas provisórias ou a novos
questionamentos (FAGUNDES, 1999) relacionados com a realidade.
O
homem apreende a realidade por meio de uma rede de colaboração na qual cada ser
ajuda o outro a desenvolver-se, ao mesmo tempo que também se desenvolve. Todos
aprendem juntos e em colaboração. "Ninguém
educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam
em comunhão, mediatizados pelo mundo" (FREIRE, 1993, p. 9).
Aprender
em um processo colaborativo é planejar; desenvolver ações; receber, selecionar
e enviar informações; estabelecer conexões; refletir sobre o processo em
desenvolvimento em conjunto com os pares; desenvolver a interaprendizagem, a
competência de resolver problemas em grupo e a autonomia em relação à busca e
ao fazer por si mesmo (SILVA, 2000). As informações são selecionadas,
organizadas e contextualizadas segundo as
necessidades
e os interesses momentâneos do grupo, permitindo estabelecer múltiplas e mútuas
relações e recursões, atribuindo-lhes um novo sentido, que ultrapassa a
compreensão individual.
Tecnologias na escola
O
grupo que trabalha em colaboração é autor e condutor do processo de interação e
criação. Cada membro desse grupo é responsável pela própria aprendizagem e corresponsável
pelo desenvolvimento do grupo.
Por
meio de interações favorecidas pela TIC, cada participante do grupo confronta
sua unidade de pensamento com a universalidade grupal, navega entre informações
para estabelecer ligações com conhecimentos já adquiridos, comunica a forma
como pensa, coloca-se aberto para compreender o pensamento do outro e,
sobretudo, participa de um processo de construção colaborativo, cujos produtos
decorrem da representação hipertextual, comunicação, conexão de ideias no
computador, levantamento e teste de hipóteses, reflexões e depurações.
Nessa
abordagem, a educação é concebida como um sistema aberto, "com mecanismos
de participação e descentralização flexíveis, com regras de controle discutidas
pela comunidade e decisões tomadas por grupos interdisciplinares" (MORAES,
1997, p. 68).
Tecer
redes de conhecimento na escola significa assumir a ótica da interação e da colaboração
entre alunos, professores, funcionários, dirigentes, especialistas e
comunidade. Nessa perspectiva, o professor trabalha junto com os alunos e os
incentiva a colaborarem entre si, o que favorece:
"uma mudança de
atitude em relação à participação e compromisso do aluno e do professor, uma
vez que olhar o professor como parceiro idôneo de aprendizagem será mais fácil,
porque está mais próximo do tradicional. Enxergar seus colegas como
colaboradores para seu crescimento, isto já significa uma mudança importante e
fundamental de mentalidade no processo de aprendizagem" (MASETTO, 2000, p.141).
Assim, as interações entre as pessoas que se
envolvem na criação dos nós de suas redes de conhecimento propiciam as trocas
individuais e a constituição de grupos que interagem, pesquisam e criam
produtos ao mesmo tempo que se desenvolvem. Cada ser retira do hipertexto as
informações que lhe são mais pertinentes, internaliza-as, apropria-se delas e
transforma-as em uma nova representação hipertextual; ao mesmo tempo que se
transforma, volta a agir no grupo transformado e transformando o grupo.
Redefine-se
o papel do professor: "mais do que ensinar, trata-se de fazer aprender
(...), concentrando-se na criação, na gestão e na regulação das situações de
aprendizagem" (PERRENOUD, 2000, p. 139),9 cuja mediação propicia a
aprendizagem significativa aos grupos e a cada aluno. Dessa forma, pode-se
mobilizar os alunos para a investigação e a problematização, alicerçados no
desenvolvimento de projetos, na solução de problemas, nas reflexões individuais
e coletivas, nos quais a interação e a colaboração subsidiam a representação
hipertextual do conhecimento.
Ensinar
é organizar situações de aprendizagem, criando condições que favoreçam a
compreensão da complexidade do mundo, do contexto, do grupo, do ser humano e da
própria identidade. Diz respeito a levantar ou incentivar a identificação de
temas ou problemas de investigação, discutir sua importância, possibilitar a
articulação entre diferentes pontos de vista, reconhecer distintos caminhos a
seguir na busca de sua compreensão ou solução, negociar redefinições,
incentivar a busca de distintas fontes de informações ou fornecer informações
relevantes, favorecer a elaboração de conteúdos e a formalização de conceitos
que propiciem a aprendizagem significativa.
Criar
ambientes de aprendizagem com a presença da TIC significa utilizá-la para a
representação, a articulação entre pensamentos, a realização de ações, o
desenvolvimento de reflexões que questionam constantemente as ações e as
submetem a uma avaliação contínua.
O
professor que associa a TIC aos métodos ativos de aprendizagem desenvolve a
habilidade técnica relacionada ao domínio da tecnologia e, sobretudo, articula
esse domínio com a prática pedagógica e com as teorias educacionais que o
auxiliem a refletir sobre a própria prática e a transformá-la, visando explorar
as potencialidades pedagógicas da TIC em relação à aprendizagem e à consequente
constituição de redes de conhecimentos.
A
aprendizagem é um processo de construção do aluno – autor de sua aprendizagem
–, mas nesse processo o professor, além de criar ambientes que favoreçam a
participação, a comunicação, a interação e o confronto de ideias dos alunos,
também tem sua autoria. Cabe ao professor promover o desenvolvimento de
atividades que provoquem o envolvimento e a livre participação do aluno, assim
como a interação que gera a coautoria e a articulação entre informações e
conhecimentos, com vistas a construir novos conhecimentos que levem à
compreensão do mundo e à atuação crítica no contexto.
Tecnologia na escola:
criação de redes de conhecimentos
O
professor atua como mediador, facilitador, incentivador, desafiador,
investigador do conhecimento, da própria prática e da aprendizagem individual e
grupal. Ao mesmo tempo em que exerce sua autoria, o professor coloca-se como
parceiro dos alunos, respeita-lhes o estilo de trabalho, a coautoria e os
caminhos adotados em seu processo evolutivo. Os alunos constroem o conhecimento
por meio da exploração, da navegação, da comunicação, da troca, da
representação, da criação/recriação, organização/ reorganização,
ligação/religação, transformação e elaboração/reelaboração.
A
incorporação da TIC na escola favorece a criação de redes individuais de
significados e a constituição de uma comunidade de aprendizagem que cria sua
própria rede virtual de interação e colaboração, caracterizada por avanços e
recuos num movimento não linear de interconexões em um espaço complexo, que
conduz ao desenvolvimento humano, educacional, social e cultural.
O
movimento produzido pelo pensar em redes de conhecimento propicia ultrapassar
as paredes da sala de aula e os muros da escola, rompendo com as amarras do
estoque de informações contidas nas grades de programação de conteúdo. Dessa forma,
parcela significativa desse contingente de analfabetos (de fato ou funcionais)
poderá desenvolver a capacidade de utilizar a TIC na criação de suas redes de
conhecimento, superando um grande obstáculo para a construção de uma sociedade
mais justa, ética e humanitária.
Para
incorporar a TIC na escola, é preciso ousar, vencer desafios, articular
saberes, tecer continuamente a rede, criando e desatando novos nós conceituais
que se inter-relacionam com a integração de diferentes tecnologias, com a
linguagem hipermídia, as teorias educacionais, a aprendizagem do aluno, a
prática do educador e a construção da mudança em sua prática, na escola e na
sociedade. Essa mudança torna-se possível ao propiciar ao educador o domínio da
TIC e o uso desta para inserir-se no contexto e no mundo, representar,
interagir, refletir, compreender e atuar na melhoria de processos e produções,
transformando-se e transformando-os.
Todas
essas mudanças que insidem nas práticas de leitura e escrita, na composição do
letramento digital encaminham a reflexão sobre a expressão da maleabilidade do
digital e nos remete a direcionar essa reflexão ao campo educacional, uma vez
que perpassa as relações do sujeito com o acesso dos instrumentos mediadores de
informações e a repercussão na produção do conhecimento.
Definitivamente
a escola continua a ostentar um papel de grande importância na formação letrada
do sujeito, amplamente preocupada em abraçar o letramento digital. A palavra,
seja na escrita ou na leitura, terá sempre o lugar de destaque no pódio do
processo de ensino e aprendizagem, em companhia dos gestos, das emoções, dos
vários instrumentos de apoio, somados agora ao uso do computador.
O que as TIC podem trazer com contribuição efetiva
à evolução do letramento é o emprego das múltiplas linguagens hipermidiáticas
para a representação do próprio pensamento associado com a recuperação
instantânea e a leitura de textos e hipertextos produzidos por si mesmo ou pelo
outro, para o diálogo de idéias, a reconstrução do pensamento a partir do
pensamento explicitado pelo outro, a análise da própria representação com a
possibilidade de reelaboração. Emerge uma nova concepção do erro como objeto de
análise, revisão e reformulação, cuja compreensão pode levar à evolução e a à
aprendizagem. (ALMEIDA, 2005, p.183‐184)
Referências
FAGUNDES, L. C., SATO, L. S.; MAÇADA, D. L. Aprendizes do futuro: as inovações começaram. Cadernos Informática para a Mudança em Educação. MEC/Seed/ ProInfo, 1999. Disponível na web: http://www.proinfo.mec.gov.br
FREIRE, P. Política e educação. São Paulo: Cortez, 1993.MORIN,
E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez;
Brasília: Unesco, 2000.
MORIN,
E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
MORAES,
M. C. O Paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997.
MASETTO,
M. T. Mediação pedagógica e o uso da tecnologia. In MORAM, J. M.; MASETTO, M. T.; BEHRENS, M. A . Novas tecnologias e
mediação pedagógica.
Campinas: Papirus, 2000.
PERRENUOD,
P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul,
2000.
SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.
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