A Educação a Distância, por alguns nomeada como Educação Mediada por Tecnologias, vem crescendo ano a ano. São centenas de cursos, incluindo curta duração, graduação e pós-graduação, e milhares de alunos.
Para fecharmos a discussão sobre a tecnologia e educação, que consolida a necessidade para o letramento digital o quanto antes dos profissionais da área, trago como pauta um texto do Professor José Manuel Moran, da Universidade de São Paulo, especialista na área, que é parte integrante do livro “Educação a Distância: pontos e contrapontos” (Summus Editorial, 2011), de autoria dele em conjunto com o Professor José Armando Valente, da Unicamp, também pesquisador da área.
A EAD no Brasil: cenário atual e caminhos viáveis de mudança
José Moran
A Educação a distância no Brasil encontra-se em uma fase de mudanças rápidas, crescimento quantitativo forte, em direções diferentes, depois de um período – no ensino formal – de forte regulação e controle.
A EAD, no ensino superior, cresce mais que o presencial (12% x 3% respectivamente). A tendência é para o fortalecimento dos modelos online. 83,7% dos alunos estão em instituições privadas, onde há uma alta concentração: três delas detêm mais de 40% dos mais de um milhão e cem mil alunos (Censo MEC de 2011-2012). As instituições públicas só tem 16,3% dos alunos e nenhuma delas consegue um alcance realmente nacional, porque a política do MEC privilegia o atendimento regional de cada universidade.
Todas as instituições estão na berlinda, buscando como se posicionar num cenário tão competitivo e complexo. Os grandes grupos têm capital, modelos padronizados, alta escalabilidade, fortes investimentos em marketing, salários relativamente baixos, custos diluídos e uma integração cada vez maior com os cursos presenciais. Há outros grupos privados, como os confessionais, que procuram crescer com mais cuidado e tentar manter o nível de resultados nas avaliações semelhante ao dos cursos presenciais. Muitas instituições entraram com cuidado na EAD pelos altos custos de manter polos, pela burocracia na tramitação legal, por preconceitos ainda existentes e pela força da concorrência dos grandes grupos. A maior parte das instituições privadas ainda não entrou na EAD, está em dúvida do que fazer, tentadas pelo crescimento expressivo da área e a diminuição de crescimento no presencial. Algumas começam a entrar na EAD para defender-se nos territórios onde são conhecidas.
Nas instituições públicas há um crescimento e consolidação crescentes, na formação de professores, onde atuam mais de cem instituições superiores federais (55 universidades federais, 29, Estaduais e 17 Institutos Federais), mas ainda há resistências internas, dificuldades no reconhecimento institucional. Também falta escalabilidade (atuação conjunta nacional) e modelos mais flexíveis e integrados com os presenciais para poder concorrer com os modelos privados maiores.
Muitas instituições banalizam a EAD; pensam que é fácil, barata, com recursos mínimos e que qualquer um pode trabalhar nela ou ser aluno. Muitos cursos são previsíveis, com informação simplificada, conteúdo raso e poucas atividades estimulantes e em ambientes virtuais pobres, banais. Focam mais conteúdos mínimos do que metodologias ativas como desafios, jogos, projetos. Alguns materiais são inferiores aos que são exigidos em cursos presenciais. Contratam profissionais com pouca experiência, mal remunerados, principalmente os tutores, sobrecarregados de atividades e de alunos. As práticas laboratoriais e de campo muitas vezes são quase inexistentes.
Muitos professores e alunos encontram dificuldades maiores de adaptar-se à EAD do que eles imaginavam. Muitos docentes e tutores não se sentem confortáveis nos ambientes virtuais, não tem a disciplina necessária para gerenciar fóruns, prazos, atividades. A falta de contato físico os perturba. O mesmo acontece com parte dos alunos, pouco autônomos, com deficiências na formação básica. Para muitos falta disciplina, gestão do tempo: se perdem nos prazos, na capacidade de entender e acompanhar cada etapa prevista. Muitos demoram para adaptar-se aos ambientes virtuais cheios de materiais, atividades, informações. Sentem falta do contato físico, da turma, quando o curso é todo pela WEB. O ambiente digital para quem não está acostumado é confuso, distante, pouco intuitivo e agradável.
Que instituições se consolidarão na EAD nos próximos anos?
As instituições que atuam na EAD terão relevância quando apresentem modelos mais eficientes, atraentes e adaptados aos alunos de hoje; quando superem os modelos conteudistas predominantes, em que tudo é previsto antes e é aplicado de uma forma igual para todos, ao mesmo tempo, de forma convencional.
Prevalecerão, no médio prazo, as instituições que realmente apostem na educação com projetos pedagógicos atualizados, com metodologias atraentes, com professores e tutores bons, com materiais muito interessantes e com inteligência nos sistemas (plataformas adaptativas) para ajudar os alunos na maior parte de suas necessidades, reduzindo o número de horas de tutoria, mas com profissionais mais capacitados para gerenciar atividades de aprendizagem mais complexas e desafiadoras. É possível hoje oferecer propostas mais personalizadas, monitorando-as, avaliando-as em tempo real, o que não era viável na educação a distância mais massiva ou convencional.
A qualidade não pode ser só um discurso, mas um compromisso efetivo de todos os setores das instituições. As instituições sérias obterão melhores resultados nas avaliações externas e no reconhecimento dos seus alunos, na divulgação do grau de satisfação. Os grandes grupos de capital aberto tendem a crescer, por enquanto, mas correm riscos de se tornarem menos relevantes pela necessidade de obter resultados no curto prazo, com o desbalanceamento entre o econômico e o acadêmico. Educação é projeto de longo prazo, e a credibilidade acadêmica, fundamental. Num período de grandes mudanças nas formas de ensinar e de aprender, se a política de conseguir lucros sempre maiores continuar se sobrepondo à da melhoria nos resultados acadêmicos, isso comprometerá os resultados e o sucesso atual poderá não se manter por muito tempo.
A legislação do presencial e da EAD está inadequada para a realidade atual. Entendo que precisamos de parâmetros para poder comparar, e poder agir com os mal-intencionados ou incompetentes. As instituições muitas vezes não ousam porque a legislação é retrógrada, burocrática, restritiva. Por que ainda se mantêm um limite de vinte por cento de atividades a distância em cursos presenciais? É uma bobagem diante de um mundo em que aprendemos de formas flexíveis. Somos o único país que limita legalmente as atividades a distância no presencial; com isso, dificulta-se o avanço de modelos integradores mais avançados.
Mais textos de José Manuel Moran você encontra em:
Educação Humanista Inovadora
http://www2.eca.usp.br/moran/