Finalmente o vídeo está chegando à sala de
aula. E dele se esperam, como em tecnologias anteriores, soluções imediatas
para os problemas crônicos do ensino-aprendizagem. O vídeo ajuda a um bom
professor, atrai os alunos, mas não modifica substancialmente a relação
pedagógica. Aproxima a sala de aula do cotidiano, das linguagens de
aprendizagem e comunicação da sociedade urbana, mas também introduz novas
questões no processo educacional.
O vídeo está umbilicalmente ligado à televisão
e a um contexto de lazer, e entretenimento, que passa imperceptivelmente para a
sala de aula. Vídeo, na cabeça dos alunos, significa descanso e não
"aula", o que modifica a postura, as expectativas em relação ao seu
uso. Precisamos aproveitar essa expectativa positiva para atrair o aluno para
os assuntos do nosso planejamento pedagógico. Mas ao mesmo tempo, saber que
necessitamos prestar atenção para estabelecer novas pontes entre o vídeo e as
outras dinâmicas da aula.
Vídeo significa também uma forma de contar
multilinguística, de superposição de códigos e significações, predominantemente
audiovisuais, mais próxima da sensibilidade e prática do homem urbano e ainda
distante da linguagem educacional, mais apoiada no discurso verbal-escrito.
Linguagens do audiovisual
O vídeo parte do concreto, do visível, do
imediato, próximo, que toca todos os sentidos. Mexe com o corpo, com a pele
-nos toca e "tocamos" os outros, estão ao nosso alcance através dos
recortes visuais, do close, do som estéreo envolvente. Pelo vídeo sentimos,
experienciamos sensorialmente o outro, o mundo, nós mesmos.
O vídeo explora também e, basicamente, o ver,
o visualizar, o ter diante de nós as situações, as pessoas, os cenários, as
cores, as relações espaciais (próximo-distante, alto-baixo, direita-esquerda,
grande-pequeno, equilíbrio-desequilíbrio). Desenvolve um ver entrecortado - com
múltiplos recortes da realidade -através dos planos- e muitos ritmos visuais:
imagens estáticas e dinâmicas, câmera fixa ou em movimento, uma ou várias
câmeras, personagens quietos ou movendo-se, imagens ao vivo, gravadas ou
criadas no computador. Um ver que está situado no presente, mas que o interliga
não linearmente com o passado e com o futuro. O ver está, na maior parte das
vezes, apoiando o falar, o narrar, o contar histórias. A fala aproxima o vídeo
do cotidiano, de como as pessoas se comunicam habitualmente. Os diálogos
expressam a fala coloquial, enquanto o narrador (normalmente em off)
"costura" as cenas, as outras falas, dentro da norma culta,
orientando a significação do conjunto. A narração falada ancora todo o processo
de significação.
A música e os efeitos sonoros servem como
evocação, lembrança (de situações passadas), de ilustração -associados a
personagens do presente, como nas telenovelas- e de criação de expectativas,
antecipando reações e informações. O vídeo é também escrita. Os textos,
legendas, citações aparecem cada vez mais na tela, principalmente nas traduções
(legendas de filmes) e nas entrevistas com estrangeiros. A escrita na tela hoje
é fácil através do gerador de caracteres, que permite colocar na tela textos
coloridos, de vários tamanhos e com rapidez, fixando ainda mais a significação
atribuída à narrativa falada. O vídeo é sensorial, visual, linguagem falada,
linguagem musical e escrita. Linguagens que interagem superpostas,
interligadas, somadas, não separadas. Daí a sua força. Nos atingem por todos os
sentidos e de todas as maneiras. O vídeo nos seduz, informa, entretém, projeta
em outras realidades (no imaginário) em outros tempos e espaços. O vídeo
combina a comunicação sensorial-cinestésica, com a audiovisual, a intuição com
a lógica, a emoção com a razão. Combina, mas começa pelo sensorial, pelo
emocional e pelo intuitivo, para atingir posteriormente o racional.
As linguagens do audiovisual respondem à
sensibilidade dos jovens e da grande maioria da população adulta. São
dinâmicas, dirigem-se antes à afetividade do que à razão. O jovem lê o que pode
visualizar, precisa ver para compreender. Toda a sua fala é mais
sensorial-visual do que racional e abstrata. Lê, vendo, desenvolvendo, assim, múltiplas
atitudes perceptivas
Propostas de Uso do Vídeo
Proponho, a seguir, um roteiro simplificado e
esquemático com algumas formas de trabalhar com o vídeo na sala de aula. Como
roteiro não há uma ordem rigorosa e pressupõe total liberdade de adaptação
destas propostas à realidade de cada professor e dos seus alunos.
Usos Inadequados em Aula
Vídeo-tapa buraco:
colocar vídeo quando há um problema inesperado, como ausência do professor.
Usar este expediente eventualmente pode ser útil, mas se for feito com freqüência,
desvaloriza o uso do vídeo e o associa -na cabeça do aluno- a não ter aula.
Vídeo-enrolação:
exibir um vídeo sem muita ligação com a matéria. O aluno percebe que o vídeo é
usado como forma de camuflar a aula. Pode concordar na hora, mas discorda do seu
mau uso.
Vídeo-deslumbramento: O
professor que acaba de descobrir o uso do vídeo costuma empolgar-se e passa
vídeo em todas as aulas, esquecendo outras dinâmicas mais pertinentes. O uso
exagerado do vídeo diminui a sua eficácia e empobrece as aulas.
Vídeo-perfeição:
Existem professores que questionam todos os vídeos possíveis porque possuem
defeitos de informação ou estéticos. Os vídeos que apresentam conceitos
problemáticos podem ser usados para descobri-los,junto com os alunos, e
questioná-los.
Só vídeo: não é satisfatório
didaticamente exibir o vídeo sem discuti-lo, sem integrá-lo com o assunto de
aula, sem voltar e mostrar alguns momentos mais importantes.
Propostas de Utilização
Vídeo como sensibilização: É,
do meu ponto de vista, ouso mais importante na escola. Um bom vídeo é
interessantíssimo para introduzir um novo assunto, para despertar a
curiosidade, a motivação para novos temas. Isso facilitará o desejo de pesquisa
nos alunos para aprofundar o assunto do vídeo e da matéria.
Vídeo como ilustração: O
vídeo muitas vezes ajuda a mostrar o que se fala em aula, a compor cenários
desconhecidos dos alunos. Por exemplo, um vídeo que exemplifica como eram os
romanos na época de Julio César ou Nero, mesmo que não seja totalmente fiel,
ajuda a situar os alunos no tempo histórico. Um vídeo traz para a sala de aula
realidades distantes dos alunos, como por exemplo a Amazônia ou a África. A
vida se aproxima da escola através do vídeo.
Vídeo como simulação: É
uma ilustração mais sofisticada. O vídeo pode simular experiências de química
que seriam perigosas em laboratório ou que exigiriam muito tempo e recursos. Um
vídeo pode mostrar o crescimento acelerado de uma planta, de uma árvore -da
semente até a maturidade- em poucos segundos
Vídeo como conteúdo de ensino:
Vídeo que mostra determinado assunto, de forma direta ou indireta. De forma
direta, quando informa sobre um tema específico orientando a sua interpretação.
De forma indireta, quando mostra um tema, permitindo abordagens múltiplas,
interdisciplinares.
Vídeo como produção: Como documentação, registro de eventos, de
aulas, de estudos do meio, de experiências, de entrevistas, depoimentos. Isto
facilita o trabalho do professor, dos alunos e dos futuros alunos. O professor
deve poder documentar o que é mais importante para o seu trabalho, ter o seu
próprio material de vídeo assim como tem os seus livros e apostilas para
preparar as suas aulas. O professor estará atento para gravar o material
audiovisual mais utilizado, para não depender sempre do empréstimo ou aluguel
dos mesmos programas.
Vídeo espelho:
Vejo-me na tela para poder compreender-me, para descobrir meu corpo, meus
gestos, meus cacoetes. Vídeo-espelho para análise do grupo e dos papéis de cada
um, para acompanhar o comportamento de cada um, do ponto de vista
participativo, para incentivar os mais retraídos e pedir aos que falam muito
para darem mais espaço aos colegas. O vídeo-espelho é de grande utilidade para
o professor se ver, examinar sua comunicação com os alunos, suas qualidades e
defeitos.
Dinâmicas de análise
Análise em conjunto: O
professor exibe as cenas mais importantes e as comenta junto com os alunos, a
partir do que estes destacam ou perguntam. É uma conversa sobre o vídeo, com o
professor como moderador.
O professor não deve se o primeiro a dar a sua
opinião, principalmente em matérias controvertidas, nem monopolizar a
discussão, mas tampouco deve ficar encima do muro. Deve posicionar-se, depois
dos alunos, trabalhando sempre dois planos: o ideal e o real; o que deveria ser
(modelo ideal) e o que costuma ser (modelo real).
Análise globalizante: Fazer,
depois da exibição, estas quatro perguntas:
- Aspectos positivos do vídeo
- Aspectos negativos
- Ideias principais que passa
- O que vocês mudariam neste vídeo
Se houver tempo, essas perguntas serão
respondidas primeiro em grupos menores e depois relatadas/escritas no plenário.
O professor e os alunos destacam as coincidências e divergências. O professor
faz a síntese final, devolvendo ao grupo as leituras predominantes (onde se
expressam valores, que mostram como o grupo é).
Análise Concentrada: Escolher,
depois da exibição, uma ou das cenas marcantes. Revê-las uma ou mais vezes.
Perguntar (oralmente o por escrito):
- O que chama mais a atenção
(imagem/som/palavra)
- O que dizem as cenas (significados)
- Consequências, aplicações (para a nossa
vida, para o grupo).
Análise "funcional": Antes
da exibição, escolher algumas funções ou tarefas (desenvolvidas por vários
alunos):
- o contador de cenas (descrição sumária, por
um ou mais alunos)
- anotar as palavras-chave
- anotar as imagens mais significativas
- caracterização dos personagens
- música e efeitos
- mudanças acontecidas no vídeo (do começo até
o final).
Depois da exibição, cada aluno fala e o
resultado é colocado no quadro negro ou painel. A partir do quadro, o professor
completa com os alunos as informações, relaciona os dados, questiona as
soluções apresentadas.
Análise da linguagem: trabalho
descritivo de compreensão e intrerpretação:
- Que história é contada (reconstrução da
história)
- Como é contada essa história
. o que lhe chamou a atenção visualmente
. o que destacaria nos diálogos e na música
- Que ideias passa claramente o programa (o
que diz claramente esta história)
. O que contam e representam os personagens
. Modelo de sociedade apresentado
- Ideologia do programa
- Mensagens não questionadas (pressupostos ou
hipóteses aceitos
de antemão, sem discussão).
. Valores afirmados e negados pelo programa
(como são apresentados a justiça, o trabalho, o amor, o mundo)
- Como cada participante julga esses valores
(concordâncias e discordâncias nos sistemas de valores envolvidos). A partir de
onde cada um de nós julga a história.
Referências
FDE - FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA
EDUCAÇÃO. Multimeios aplicados à educação: uma leitura crítica. Cadernos
Idéias, n.9, São Paulo, FDE, 1990.
BABIN, Pierre e KOPULOUMDJIAN, Marie-France. Os
novos modos de compreender; a geração do audiovisual e do computador. São
Paulo: Ed. Paulinas, 1989.
FERRÉS, Joan. Vídeo e Educação. 2a ed., Porto
Alegre: Artes Médicas (atualmente Artmed), 1996.
____________. Televisão e Educação. São Paulo:
Artes Médicas (Artmed), 1996.
MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. São Paulo:
Brasiliense, 1988.
MORAN, José Manuel. Leituras dos Meios de Comunicação.
São Paulo, Ed. Pancast, 1993.
__________________. Como ver Televisão. São
Paulo, Ed. Paulinas, 1991.
MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS,
Marilda. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. 7ª ed., Campinas: Papirus,
2003.
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